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Patrimônio Cultural Material: As “santacruzinhas” ou oradas de beira de estrada de Pirassununga

Essas “capelinhas”  existiram às dezenas no meio rural de Pirassununga. Nas poucas que  restaram, além de pedaços de imagens de santos, quadros de santos e de santas ceias, terços, crucifixos, entre outras quinquilharias ali são depositados.

Em seu interior, cada qual abriga uma cruz de madeira afixada na terra: a Santa Cruz.

Uma prática fortemente enraizada na cultura popular preconiza que as imagens quebradas de santos, por estarem benzidas, não podem ser jogadas no lixo. Sabe-se lá por quais razões, as pessoas passaram a levar as peças avariadas nas “santacruzinhas”, transformando-as em depósitos de objetos religiosos sem qualquer utilidade.

MOLHAR A SANTA CRUZ PARA PEDIR CHUVAS

No passado, durante as longas estiagens, os colonos saiam em procissão pela escuridão da noite, entoando cânticos religiosos, em direção às “capelinhas”, levando vasilhas com água para molhar o pé da Santa Cruz, implorando chuva aos céus para salvar as pastagens, as plantações e os animais.

Nos períodos mais críticos, essa tradição continua preservada em alguns bairros rurais de Pirassununga.

Por outro lado, os andarilhos as utilizavam para descansar, pernoitar, ou para se protegerem do frio e das chuvas.

SANTACRUZINHA DA NOIVINHA

Lamentavelmente, as poucas “Igrejinhas” existentes têm sido objetos de reiteradas depredações. Os proprietários rurais, indignados com o desrespeito e a ação dos vândalos esforçam-se para restaurá-las.

Na estrada vicinal que dá acesso ao bairro de Santo Antônio Cavalheiro está a “Santacruzinha da Noivinha”, uma das mais antigas, que data da década de 1920, reconstituída há alguns anos por funcionários da prefeitura.

Contam que, em meados da década de 1920, uma jovem vestida de noiva, quando era conduzida pelo pai à cidade para se casar, caiu do trole, bateu a cabeça e morreu no local. Diante do trágico episódio, ele teria erguido aquela singela  “capelinha” para todos os dias ali orar pela alma da filha que perdera naquelas condições.

A maior das oradas de beira de estrada do município, no bairro rural do Roque, é, também, a mais protegida de todas. Situa-se em meio às plantações, longe da vista dos vândalos. Um grupo de oração para lá se dirige com frequência para rezar o Terço.  Ou seja: trata-se de uma “santacruzinha” bem cuidada.

“CEMITÉRIO DE ANJINHOS”

Outro aspecto ligado à elas, que por razões obvias era acobertado, diz respeito aos abortos que eram veladamente praticados na região rural, longe das cidades.

Em “nome da moral e dos bons costumes”, as moças solteiras jamais poderiam pensar em se engravidar antes do casamento. Quando isso ocorria, para não serem expulsas de suas casas diante da fúria dos pais, recorriam à prática do aborto, enterrando inocentes fetos atrás das oradas.

Assim, acreditavam que estivessem livres do “pecado mortal”. E, para alcançar o “perdão” iam diariamente às “santacruzinhas” rezar pelas almas dos “anjinhos” que optaram por não conceber. Era a forma que encontravam para “aliviar o peso da consciência” diante do ato consumado.

Patrimônio cultural imaterial do município, as “santacruzinhas”, oradas, ermidas, igrejinhas ou capelinhas de beira de estrada poderiam ser mapeadas e preservadas.  Cada qual tem a sua história.  Com o passar dos anos, identificar as razões pelas quais elas foram erguidas vem se transformando numa tarefa cada vez mais difícil.

Infelizmente, os mais idosos, testemunhas oculares e praticantes da devoção de molhar a Santa Cruz para pedir chuvas estão “indo embora” e levando com elas a riqueza da oralidade. Assim, fica cada vez mais difícil encontrar  o “fio dessa meada” para registrarmos fatos interessantes sobre a Pirassununga que tanto amamos.

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